Vale a pena assistir "Flight" (O vôo), filme de
Robert Zemeckis, que ainda está em cartaz, nos cinemas, por esses dias. É,
indiretamente, uma "aula" de institucionalismo – e eu não me
assustaria se soubesse que seu patrocinador é a NTSB (National Transportation
Safety Board), poderosa agência reguladora estadunidense que trata, entre
outras coisas, da investigação das causas dos acidentes aéreos.
A outra agência – igualmente robusta –, a FAA (Federal
Aviation Administration) passa de raspão no argumento, mas o sindicato dos
pilotos não. E é abordada a questão das relacões "com a imprensa e a
mídia" (assim mesmo, separando uma coisa de outra coisa) em momentos de
crise.
Responsabilidade é o "plot" - todo o tempo. Quem é
o responsável? Pelo estado do avião, pelo estado do piloto, pelo estado - de
ânimo - da tripulação, pelo acidente, pelas vidas perdidas, pela perda da
aeronave, pela potencial falência da empresa aérea etc. etc. etc. Em certo
ponto, o personagem principal - o piloto Whip Whitacker, interpretado pelo ator
(indicado ao Oscar pelo papel) Denzel Washington, diz mais ou menos isso: - Eu
traí a confiança pública (I've failed with the 'public trust').
É isso aí. "Public trust" é algo intangível,
sutil, quase etéreo. E é com essa matéria 'prima' que relações-públicas – e
jornalistas responsáveis – têm que lidar todos os dias. É bom que o
entretenimento se preste também a dar aulas sobre coisas tão
"invisíveis" quanto responsabilidade civil - algo que vem muito antes
da responsabilidade - tão em moda - social.
Na minha opinião, os conflitos mostrados neste filme
(tirando a noção errônea de que algumas drogas "curam" os efeitos de
outras - ponto que provocou reações hilariantes na plateia de que participei
ontem) e os modos de agir dos personagens do filme - e sobretudo a seriedade
com que são retratadas as instituições - são exemplares e devem servir de
inspiração, pois estão a anos-luz, por exemplo, da (respire fundo) Agência
Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários,
Ferroviários e Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro (a
"popular" Agetransp), que significa - e é - um NADA, como podem
atestar os mais de 16 milhões de almas que se movem no estado do Rio de
Janeiro.
Por Manoel Marcondes Neto
Professor da Faculdade de Administração e Finanças da UERJ, bacharel em Relações Públicas (UERJ), especialista em Análise de Sistemas e Métodos (St. Charles CPE/EUA), mestre em Comunicação com ênfase em Sistemas de Informação (UFRJ) e doutor em Ciências da Comunicação (USP). Editor dos websites ‘marketing-e-cultura.com.br’ e ‘rrpp com.br’.
Autor dos livros ‘A transparência é a alma do negócio’ (Conceito Editorial, 2012), ‘Relações Públicas e Marketing: convergências entre comunicação e administração’ (Conceito Editorial, 2008, 2a. edição), ‘Marketing Cultural: das práticas à teoria’ (Ciência Moderna, 2005, 2a. edição) e co-autor (com Lusia Angelete Ferreira) do livro ‘Economia da Cultura: contribuições para a construção do campo e histórico da gestão de organizações culturais no Brasil’ (Ciência Moderna, 2011).
